Publicado em: 10/06/2003 - Baguete - Jornalismo Empresarial Digital
Esta coluna é a segunda de três sobre o assunto iniciado há uma coluna atrás.
“Num curso de informática para iniciantes adultos, eu explicava a função do mouse e como o cursor respondia aos seus movimentos. Daí eu disse aos alunos:
- Como exemplo, peguem o mouse e vão subindo com ele até que a setinha atinja a parte de cima do monitor.
Foi assustador ver os alunos com o braço esticado, segurando o mouse acima da cabeça...”
Este exemplo, assim como o caso número 1, envolve uma questão de interpretação de signos, em especial da compreensão da mensagem e do significado inteiro da oração que o professor desejava transmitir.
“Quando o emissor e o receptor precisam verificar se o código que utilizam é o mesmo, o discurso está desempenhando a função de se auto-referenciar. Na sala de aula, a relação professor-aluno, diante de uma exposição cognitiva, é uma relação metalingüística. “Percebe o que quero dizer?” pode ser tanto um teste puramente fático para verificação do canal como uma antecipação metalingüística. E o que se faz é sempre ua operação substitutiva – própria do código – fornecendo informações sobre o código em uso. Se houver afasia do eixo paradigmático – o distúrbio, a dificuldade em substituir termos, conforme diz Jakobson – a tarefa de uso do código estará comprometida. Pierce já nos informava do caráter de representação e de substituição do signo e a as noção de interpretante – um signo que substitui o signo anterior, ou o significado de um signo e outro signo – equivale ao funcionamento da operação tradutora da metalinguagem.”
Neste caso, teria sido importante o técnico identificar e explicar, traduzindo em linguagem compreensível pelo usuário, o que significaria “subir o mouse até a parte de cima do monitor”.
Subir tem uma denotação de elevar, erguer e foi exatamente o que os usuários realizaram com o dispositivo.
Estudo de Caso 3 – Função emotiva
“Passei então a seguinte orientação para o usuário:
- OK, execute o comando que lhe orientei..
- Travou tudo!!
- Você executou o comando conforme lhe passei?
- Não fiz um pouco diferente, achei que resultaria igual, não faria diferença.
- Arre-égua!
- Como?"
Nesta situação uma expressão regional pode causar um distúrbio de comunicação entre operador e usuário. Em especial, a expressão “arre-égua” pode significar, às populações do norte do Brasil, uma interjeição de espanto e dificuldade. Mas, se o receptor da mensagem for do sul do Brasil, isto poderá ter um significado ofensivo.
A utilização de expressões regionalistas ou mesmo de moda e seu objeto, operam metalinguisticamente no círculo de sua história e algumas vezes perdem seu contexto em um diálogo de longa distância como este.
“A função emotiva, tem seu Einstellung no emissor que deixa transparente as intenções do seu dizer, marcando-se em 1ª pessoa; comparece também numa fala marcada pela interjeição (“extrato puramente emotivo da linguagem”, diz-nos Jakobson acerca da interjeição), pelos adjetivos, que apontam o ponto de vista do emissor, daquele que fala, por alguns advérbios, por signos de pontuação – tais como exclamação, reticências. A função emotiva implica, sempre, uma marca subjetiva de quem fala, no modo como fala. Por isso, as canções populares desditosas são mensagens que acabam provocando a emoção do tipo epidérmico – falam adjetivamente, adverbialmente, das perdas amorosas”.
No parágrafo acima Chalhub esclarece que advérbios e expressões podem assumir questões subjetivas para o emissor da mensagem. Infelizmente, nem sempre estas interjeições serão compreendidas pelo receptor da mensagem, convidando o mesmo a imaginar agressões ou outras situações deste tipo, sendo pioradas nas situações de irritabilidade dos mesmos.
Estudo de Caso 4 – Estereotipação
“Certa vez uma usuária (loira) toupeira, que um colega atendera antes e me avisara que era muito burra, me liga e pede ajuda para instalar o programa.
- Claro, você está com o disquete na mão?
- Sim, está aqui na minha mão.
- Ótimo, tire ele da capinha e coloque no drive.
- Puxa, é difícil de sair. Peraí que estou tirando. Pronto, consegui mas agora o que faço com ele?
- Coloque-o no drive.
- Ele é muito mole e fica difícil de colocar.
- Como assim, muito mole?
- É, a parte redondinha que eu tirei da capinha é muito mole...
- Meu deus... estou te enviando outro disquete.”
“Na formação de nosso repertório, ao longo de nossas experiências, há uma tendência constante acumular idéias e conhecimentos que, com o tempo, vão se cristalizando, endurecendo, e viram uma espécie de “carimbo”; usamos esse “carimbo” para conhecer ou reconhecer pessoas, objetos ou fatos à nossa volta. O estereótipo (grego: stereos, sólido) pode designar um “carimbo mental”, ou melhor, uma idéia padronizada em nossa mente e que utilizamos em nossa percepção para reconhecer ou identificar os indivíduos, os acontecimentos e os objetos.
O estereótipo pode causar sérios danos à comunicação: se for aplicado rigidamente à percepção do comportamento humano, vai conduzir-nos a um conhecimento deformado dos indivíduos e gerar “ruídos” nas mensagens.”
No exemplo citado, o técnico já parte para um pressuposto de que a usuária é, segundo as palavras de seu colega, “burra”, o que irá condicionar de forma negativa toda a seqüência de atendimento à mesma.
(Continua no próximo artigo)
Grande abraço
Cordialmente
Roberto Cohen