ITIL - Ser ou não ser certificado, eis a questão!

Publicado em: 17/10/2005 - Baguete - Jornalismo Empresarial Digital

Esta coluna suscita dúvidas sobre o real valor de uma certificação profissional onde basta responder corretamente várias questões, sem nenhum exercício prático, para receber um diploma.

Perdoem-me o leitor por usar este chavão de Shakespeare para atrair sua atenção. Mas como o tema (ITIL) é da moda, vale a armadilha.

APRENDER É BOM; CERTIFICAR-SE, NEM TANTO...

Uma competição perversa grassa no mundo atual. Não só para os velhos, como eu, mas também para a juventude que chega ao mercado de trabalho. A necessidade de possuir um algo a mais, de diferenciar-se dos outros concorrentes (ser a Vaca Roxa, como diz Seth Godin) joga esse novo profissional em cursos de especialização que desaguam nas famigeradas e "necessárias" (é, coloquei entre aspas duplas, sim!!) certificações.

Apesar do ITIL ser um conhecimento acumulado em livros desde 1980, aterrisou recentemente em nosso país. Uma coletânea bem organizada de práticas recomendadas pelos britânicos (craques em esquadrinhar e colocar pingos nos is) de grande valor. Contudo...

Que valor existe em dizer SOU DIPLOMADO EM ITIL?

E a resposta combina com a pergunta-título dessa coluna: ser ou não ser certificado, eis a questão!

Quero desdobrar essa questão em duas ramificações e, prezado leitor, fique atento para me acompanhar e - se você já passou na prova da EXIN ou ISEB, deixe a indignação de lado, ao menos temporariamente, hehe!!!

Primeiro - aspecto comercial

Na década de 1990 aconteceu um boom de certificações Microsoft e Novell. Jesus, quem não as possuísse estaria fora do mercado profissional. Empresas de treinamento, de certificação, vendedores de material, testes, etc forraram o poncho de dinheiro, como falamos no sul, e re-estimulavam a mídia com tais prognósticos. Era um alvoroço semelhante aos concursos públicos para Banco do Brasil, INSS, etc. Com glamour extra, isso parece que colou, tanto que se reproduz e perpetua na área de TI até hoje.

Profissionais, empresas e até produtos buscam certificações nas entidades oficiais ou alternativas (carimbos de software ITIL-compliant) para destacarem-se da concorrência, mas...

Você pode garantir que o serviço de alguém certificado será bom? Será que um indivíduo com curso de tiro (também está na moda este assunto) conseguirá usar este saber quando atacado por um bandido?

Adianta um software atender uma lista de especificações ITIL quando o suporte prestado pelo desenvolvedor é ineficiente ou tão caro que derruba todo seu orçamento? Ou quando se precisa de uma mudança pra ontem e ela só é implementada depois de seis meses? Após esse tempo seu negócio já era, seu concorrente despachou você e sua empresa para as cucuias.

Assim... Cuidado com o frenesi gerado no assunto, pois ele tem um viés comercial poderoso que muitas vezes não resulta em competência! E falando nisso...

Segundo - aspecto de competência

Já é madura a teoria francesa que estabelece que a competência de um profissional deve ser mensurada pela sigla CHA - Conhecimento, Habilidade e Atitude.

Simplificando: não basta ter conhecimentos sobre ITIL (SABER). É preciso também ter a habilidade de implementar esse conhecimento na prática (SABER FAZER) e ainda mais, ter uma atitude adequada diante das situações que se impõe (SABER SER).

O que significa isso?

Que APENAS certificar-se não significa NADA, exceto que se conhece algo.

Ora, posso participar de um ensino-a-distância de construção de barcos, realizar as provas e obter meu certificado. E NUNCA TER CONSTRUÍDO UM BARCO, hahaha. E mesmo que eu tenha exercitado minhas habilidades e construído um barco de verdade, qual será minha atitude frente a uma tempestade em alto-mar, uma dificuldade inesperada, etc? Será que vou roer a corda... ou encarar a parada?

Onde quero chegar com toda essa lengalenga?

Derrubar o ITIL? Claro que não, este é um conhecimento e quanto mais aprendemos, melhor produzimos e melhoramos nossa vida, mas...

Um diploma hoje em dia tem pouco significado. Conheço muito advogado que é datilógrafo/digitador em tribunais de justiça.

Qualquer organização está centrada em pessoas. Certificadas ou não, elas fazem a diferença (ou você!!!) no resultado da sua organização. Que valor possui alguém ser certificado se faz corpo-mole quando a empresa mais precisa? Ou se não consegue transformar o conhecimento que possui em algo útil?!

O que tento DESTACAR é que certificação por si é um nada. Se for possível avaliar como esta pessoa (ou organização) utiliza esse conhecimento, opaaaaa... Aí teremos um diferencial.

Portanto, invés de sair correndo para certificar-se, veja se isso realmente é um alicerce em sua carreira. Lembre-se que no passado várias outras certificações surgiram e os profissionais pouco ou nenhuma vantagem tirou delas, em termos de diferencial (até por que todo mundo fez junto!).

Volte-se mais para o CONHECIMENTO QUE O ITIL traz, pois um profissional que conhece as melhores práticas e as exercita, é muitas vezes preferível do que outro possuidor de certificado e que nunca ralou na vida real.

E se você é um cliente prestes a contratar alguém (empresa ou funcionário), os diplomas não são tão significativos quanto uma boa entrevista ou feedbacks do passado da pessoa ou fornecedor.

Grande abraço

Cordialmente

Roberto Cohen